Joga Bonito: A paixão brasileira pelos e-sports

Riot·8/28/2017, 1:59:45 PM·1 votes·7,224 views
Joga Bonito
A paixão brasileira pelos e-sports
28 de agosto de 2017
Felipe “brTT” Gonçalves levantou dois dedos no ar em direção aos mais de cem fãs pressionados contra a grade de proteção que gritavam por ele há vários minutos. Gritando seu nome, gritando seu lema: “rexpeita”. A cantoria virou uma festa ainda maior assim que ele reconheceu a presença dos fãs e o ambiente foi tomado por uma energia que ecoou por todos os andares da Jeunesse Arena do Rio de Janeiro. Até aquele momento, brTT estava de costas para os fãs, se esforçando para dar atenção às pessoas com quem falava. Mas ele não conseguia conter o sorriso, e é fácil entender o porquê. Em um estádio que havia recebido Faker, o melhor jogador de League of Legends do mundo, e Ronaldo, o fenômeno do futebol, a pessoa mais adorada ali era o brTT.
Se você entrar nos camarotes naquele andar, vai ver uma multidão ainda maior vibrando com o Mid-Season Invitational 2017.
Um dos maiores centros turísticos do mundo estava recebendo visitantes de todos os cantos do mundo do League of Legends. Foi o maior evento de eSports já sediado no Brasil e talvez leve anos até outro evento dessa magnitude voltar ao país.
TinOwns, Jockster, micaO, brTT, Takeshi, Yang and Ziriguidun
Mesmo assim, as maiores estrelas do CBLoL – aquelas cujas oportunidades de jogar na frente de um público ao vivo já são raras – eram meras espectadoras. A Red Canids já havia perdido na Fase de Entrada em São Paulo, não tendo nem chegado ao Rio de Janeiro. Ainda que eles encontrassem consolo nos corredores do estádio, com inúmeros fãs gritando e pedindo fotos e autógrafos, isso seria ofuscado pela visão de outra equipe ouvindo os gritos da torcida e reivindicando a vitória na casa dos jogadores brasileiros.
“Foi tão triste quando a gente perdeu”, disse brTT. Ele estava ao meu lado em um camarote, vendo a SKT T1 conquistar sua terceira vitória internacional seguida. O brTT é um cara grandão, e as tatuagens em seu braço combinam com a sua imagem de “bad boy”, mas ele fica claramente feliz em ver tanta gente torcendo. Seu amor pelo jogo, pelos fãs e pelo seu país é o centro da figura dele como pessoa.
Foi tão triste quando a gente perdeu.
“[No MSI], foi a primeira vez que tivemos a oportunidade de jogar num palco grande e representar o Brasil contra as melhores equipes do mundo. Foi triste porque a gente sabia que podia ganhar, a gente tinha uma equipe que podia ganhar. Mas as outras equipes jogaram melhor. Vários fãs compraram ingressos só pra nos ver, mas a gente perdeu. Por isso que é tão triste.”
Ali perto havia mais uns 15 ou 20 jogadores profissionais do CBLoL. Os confetes estavam prestes a cair, a SKT estava prestes a erguer a taça e, naqueles breves momentos, talvez aqueles jogadores tenham se perguntado o que exatamente os separava do pódio.
No Brasil, “o jogo bonito” é uma frase popular entre quem fala de futebol. O Brasil é famoso por sua proeza futebolística, tanto que o Rioter Bruno “Butcher” Pereira, um ex-narrador esportivo, diz que toda a cultura brasileira gira em torno do esporte. Na verdade, é mais do que só um esporte ou um jogo. O futebol é uma religião. É vida.
Joga bonito. Essa frase expressa tantas coisas que, se perguntarmos a várias pessoas o que ela significa, cada uma vai dar uma resposta. “Joga bonito” representa uma espécie de paixão ou sentimento – e no fundo parece ser uma antítese à noção de que “os fins justificam os meios”. Afinal, são os meios que importam, e talvez seja até mais importante jogar bonito do que vencer.
E talvez seja até mais importante jogar bonito do que vencer.
Esse foi o sentimento que eu vi ecoar repetidamente durante a minha estadia no Brasil – e que já parece ter invadido a era moderna da cultura brasileira. Por muito tempo, houve um certo vácuo entre o futebol e o segundo esporte mais popular do país, que talvez fosse basquete, vôlei ou surfe. Não havia um consenso. Hoje em dia, porém, esse lugar está sendo tomado pelos eSports.
A melhor equipe do Counter-Strike: Global Offensive, a SK Gaming, vem do Brasil. Outra equipe brasileira, a Immortals, também é conhecida como uma das melhores do mundo. Juntas, elas são o orgulho dos eSports brasileiros em nível internacional. Apesar disso, o League of Legends continua sendo o eSport mais popular do país e creio que isso seja um dos motivos por trás da empolgação gerada pelas equipes brasileiras de LoL antes dos eventos internacionais. Se a equipe de CS:GO pode ser tão dominante, por que a de LoL não pode?
O “joga bonito”, quer você goste ou não, invadiu os eSports. Há uma grande ênfase no jogo individual: de fato, a maioria dos fãs brasileiros gosta mais de jogadores individuais do que das equipes. Me disseram que a única exceção talvez seja a paiN Gaming, por causa da sua ascensão precoce no cenário. Em todo caso, o intenso foco nos indivíduos significa que, às vezes, existe uma certa pressão para ser chamativo.
Murilo “Takeshi” Alves, jogador do Meio na Keyd Stars, disse: “Se você fizer uma grande jogada aqui, o pessoal vai lembrar de você. Mesmo que você perca, vão dizer ‘Mas caaaara, jogou bonito!’”.
Takeshi é um dos profissionais mais bem estabelecidos no cenário do CBLoL. Depois de perder cinco finais do campeonato, ele tem a infeliz reputação de sempre acabar em segundo, mas isso não o impede de ser uma das figuras mais proeminentes e queridas nesse meio. Há coisas piores do que chegar a cinco finais. Fui conhecer um pouco do Rio de Janeiro com o Takeshi, com o rota superior da INTZ e-Sports, Marcelo “Ayel” Mello, e com o técnico assistente da INTZ, Lucas Pierre.
Subimos de bondinho até o Pão de Açúcar, o morro de 396m de altura recentemente declarado Patrimônio Cultural da Humanidade. O Rio de Janeiro é uma cidade linda, com seus morros que enfeitam as várias praias e criam pequenas baías ao longo da costa. Do topo do Pão de Açúcar, é possível apreciar uma visão panorâmica da cidade, que inclui uma bela vista do Cristo Redentor. À noite, uma luz projeta a sombra do Cristo nas nuvens.
Murilo “Takeshi” Alves
Mesmo que você perca, vão dizer "Mas caaaara, jogou bonito!"
Às vezes pode parecer que há um morro inteiro entre o pessoal do League of Legends brasileiro e a comunidade coreana, ou até mesmo norte-americana. Mas 2,5 milhões de pessoas assistiram às Finais da 2ª Etapa do CBLoL 2016; o Brasil está longe de ser uma região secundária. Tanto Ayel quanto Takeshi demonstraram um certo medo de altura. Eles não gostaram muito dos bondinhos, mas espero que isso ao menos os tenha ajudado a criar coragem.
“Tudo bem ter perdido para a SKT”, disse Ayel. “Se você matou sozinho o Faker, você é um puta herói”, constatou ele, sorrindo. Ayel é uma das figuras em ascensão no cenário do CBLoL. Apaixonado e bem-humorado, ele incorpora tudo o que já se espera de um jogador brasileiro.
Marcello “Ayel” Mello
Se você matou sozinho o Faker, você é um puta herói!
Takeshi continuou: “Individualmente, a torcida vibraria mais com o abate solo do Faker [do que com a derrota da SKT]. Em uma final dos sonhos, se eu matasse sozinho o Faker tipo no nível 2... nossa. Estaria feito. Podia parar e ir pra casa.”
Esse era um sentimento compartilhado por todos que eu consultei. Dos jogadores profissionais aos próprios fãs, todos concordaram que prefeririam ver seu jogador favorito matando sozinho um grande nome do LoL do que efetivamente ganhando o torneio. E cada resposta era um choque para mim. Mas, se contextualizarmos isso levando em conta os maiores nomes do futebol brasileiro (Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Neymar, etc.), nota-se que é uma cultura esportiva cheia de jogadores tão individualizados que não precisam nem de dois nomes. E os eSports também são construídos na base dos apelidos.
Segundo Ayel, “Aqui no Brasil, os fãs se importam demais com habilidades e jogadas individuais. Quando um cara mata alguém solo, o pessoal vai à loucura, tipo ‘Meu Deus, ele pegou o abate sozinho’. Na verdade não entendo direito por que nos outros países a galera não valoriza isso tanto, mas aqui o pessoal fica louco.”
Não sei se isso é uma expectativa saudável da parte dos fãs, mas pode ser que a minha visão seja meio pessimista. Raramente se decide entre um e outro, já que jogadas individuais são uma das coisas que podem levar a vitória. Mas, por outro lado, talvez seja difícil torcer por grandes conquistas internacionais quando elas parecem tão longínquas.
Os jogadores, claro, não ignoram isso. Não é que eles façam jogadas ruins intencionalmente, mas há sempre uma voz lá dentro lembrando que eles poderiam ser considerados deuses na comunidade.
“Às vezes isso me afeta”, diz Ayel. “Sonho em abater alguém ou ganhar ou mandar um belo backdoor com a Fiora.”
Marcello “Ayel” Mello, Murilo “Takeshi” Alves
Takeshi concordou. “Os brasileiros lembram de todas as boas jogadas. Se você faz um pentakill hoje, eles vão lembrar disso daqui a cinco anos. Então eu fico tipo, ‘Se eu abater alguém hoje nesse palco, a galera vai gritar meu nome.’”
Mesmo nas equipes estrangeiras, os fãs brasileiros também se atêm a jogadores específicos.
“Eles não torcem pela SKT”, explica Takeshi. “Eles torcem pelo Faker.”
Além de Faker, o único outro nome que se ouviu na torcida várias vezes foi o de seu colega de equipe, Peanut. Claro que a jogada de destaque de Peanut, que fez 14 abates em 12 minutos com o Lee Sin, provavelmente elevou bastante o seu status aos olhos dos fãs, mas o Brasil gostou dele por um motivo muito mais simples.
“No Brasil, a gente adora gente simpática”, disse Ayel.
É uma mistura de sentimentos. Tenho orgulho das conquistas do Brasil. Trouxemos o MSI para o país e vemos os eSports sendo levados a sério, então essa é a parte boa”, disse Takeshi. Perguntei a ele como era ver as outras equipes dominando em solo brasileiro. Afinal, o palco principal foi preparado e ocupado pelos brasileiros, mas mesmo assim nenhuma das equipes nacionais conseguiu honrá-lo.
“A parte ruim”, continuou ele, “é que a gente tentou muito. A gente jogou muito scrim. A gente treinou muito. E mesmo assim não conseguimos chegar no grande palco. E cada vez que tem uma grande final acontecendo e eu não tô lá, fico triste. Eu penso ‘Ah, eu estaria ali se tivesse treinado uma hora a mais por dia.’”
O estúdio do CBLoL fica em meio à selva de concreto da região metropolitana de São Paulo. Nos fins de semana normais, o estúdio não recebe público. Os fãs têm raríssimas oportunidades de encontrar os jogadores profissionais, e aqueles que não chegam regularmente às finais não têm nem chance de jogar na frente de uma torcida ao vivo.
Hoje em dia, o jeito que a Riot organiza os grandes eventos significa que os profissionais ficam cercados de fãs por todos os lados. Entrar e sair do estádio ao som dos gritos da torcida é de fato uma experiência memorável. Os eSports de LoL não têm jogos dentro ou fora de casa no momento, então ter o seu próprio país hospedando um evento é o mais próximo que se chega de ter uma torcida local. Além disso, o senso de nacionalismo fica ainda mais aguçado em eventos internacionais, especialmente em um que reúne as melhores equipes do mundo.
No Brasil, os fãs estão ansiosos por mais. “O futebol é quase uma religião. Se você nasce aqui, seu pai vai te dar uma bola”, diz Takeshi. “Mas, para o pessoal da nossa idade, os eSports vêm logo em segundo ou terceiro lugar”. Os fãs esperaram pela equipe de Takeshi no aeroporto de Recife, onde foi disputada a Final da primeira etapa do CBLoL. Com base em alguns tweets, eles calcularam o tempo de viagem; nunca que desperdiçariam a oportunidade de encontrar seus heróis. Mesmo no Pão de Açúcar, nos deparamos com ao menos dez pessoas que pararam a dupla e pediram para tirar fotos.
A gente treinou muito. E mesmo assim não conseguimos chegar no grande palco.
Marcello “Ayel” Mello, Murilo “Takeshi” Alves with fans
Minha impressão foi que o cenário do CBLoL era muito unido. Da equipe de suporte da Riot aos jogadores e técnicos, todos pareciam ser amigos. Ao longo da Final do MSI, eles se encontravam e faziam apertos de mão secretos, se abraçavam e sorriam – e pareciam sempre genuinamente felizes de se ver. Não é que as equipes da América do Norte sejam frias, mas eles não têm o mesmo tipo de camaradagem.
Isso também é da cultura deles. “Acho a paixão uma coisa muito positiva em tudo que a gente faz”, diz Ayel. “Quando a gente realmente quer algo, dá tudo de si”.
“E não só nos eSports”, acrescentou Takeshi. “No Brasil, as coisas nem sempre são muito boas, mas a gente tenta sempre ver elas de um jeito legal. Ver o lado positivo, sabe. Mesmo quando as coisas ficam muito difíceis, a gente tenta colocar um sorriso no rosto. Por isso temos a frase ‘brasileiro não desiste nunca’. Não importa o que aconteça, seja na nossa família ou no país em geral, o povo brasileiro sempre vai tentar”.
“O Faker fez uma coisa quase impossível”, diz Takeshi. Em um dos jogos entre a SKT e a Flash Wolves, ele expulsou a LeBlanc do Maple da rota no nível 1, e a contagem de monstros foi de 11 ou 12 a 0 imediatamente. “Mas é o Faker, sabe?”
Os jogadores brasileiros não se acham piores que os outros em termos de mecânica. Inclusive, Ayel acha que são até melhores. Não é por causa da falta de talento, de jogadores ou de interesse que o Brasil está ficando para trás. Mas o teto do League of Legends fica infinito quando você considera fatores como jogo em equipe e coordenação, e a base de tudo isso é a tomada de decisão. E é aí que o Brasil falha.
Ayel disse “No fundo eu me identifico com o Smeb porque ele teve um passado negro. Ele não era muito bom, mas agora é bom pra caramba, e eu também me sinto assim. Eu era bem ruim e não sabia como melhorar. Eu tentava muito, mas não sabia por onde começar”.
“Só tivemos um estúdio para jogar a partir de 2015, então somos meio novos nessa coisa de ser profissionais de verdade”, elaborou Pierre. O técnico assistente havia estado quieto durante a viagem e, de modo geral, havia cedido a fala aos jogadores.
Não importa o que aconteça, o povo brasileiro sempre vai tentar.
“Somos uma região mais nova no LoL”, continuou ele. “Nossos jogadores estão ficando cada vez melhores, mas nossos técnicos estão recém começando. Não temos uma cultura como a da Coreia, que já está 10 anos na frente por causa do [StarCraft] Brood War. Ultimamente, alguns técnicos e analistas têm vindo de outros lugares. Esses caras trazem experiência para que a gente possa desenvolver novas equipes de apoio”.
Alguns jogadores coreanos já passaram um tempo no Brasil (como o Crown e o Olleh), mas eles sozinhos não conseguiram levar a região ao Mundial. No fim, parece que é uma questão de ter uma estrutura de suporte adequada para ajudar os jogadores a elevarem o jogo no nível macro. Como sugeriu Pierre, o desenvolvimento da equipe de técnicos e a infraestrutura talvez sejam o mais importante.
Acho que a gente precisa inovar um pouco mais e criar o nosso próprio meta e estilo de jogo.
Esse é um tema consistente em todas as regiões do mundo. A Europa e a América do Norte não aumentaram sua equipe de suporte só para parecer bonito. No entanto, ainda se vê muita falta de experiência quando se trata de técnicos e equipes de suporte. São poucas as pessoas que têm mais de dois anos de experiência em orientação técnica, e fora da Coreia é difícil achar bons veteranos com uma década ou mais de experiência.
“Acho que a gente não se adapta muito bem”, acrescentou Takeshi. “Tipo, se você vê a SKT, eles se adaptam ao meta muito rápido. Às vezes eles até criam seu próprio meta e o Brasil tenta sempre copiá-los. Mas isso nos deixa sempre um passo atrás, então é algo que estamos tentando desenvolver. ”
“No Brasil, a gente nunca inova”, diz Aryel. “Sempre observamos a América do Norte ou a Coreia e copiamos deles. Acho que a gente precisa inovar um pouco mais e criar o nosso próprio meta e estilo de jogo, igual aos [GIGABYTE] Marines, que criaram seu próprio estilo e chegaram às eliminatórias”.
“Tipo, eles chegam até a trocar de rota. Ninguém [mais] faz isso. Se você é pego de surpresa por isso, simplesmente perde a partida”, disse Takeshi.
A participação dos vietnamitas da Marines no MSI poderia ser um grande marco histórico para as futuras regiões do mundo de League of Legends. No League, há um grande objetivo final: a destruição do Nexus do adversário. Há infinitos caminhos para chegar nesse ponto. Também me pergunto se o Brasil poderia desenvolver um estilo de jogo para levar consigo ao palco mundial. É possível que esse estilo se baseie em jogadas individuais “exibidas”, ainda que pareça contra-intuitivo se comparado ao modo como todos os outros jogam League.
Até lá, no entanto, os jogadores brasileiros continuarão lidando com a surpresa e a decepção diante da disparidade. “A parte que mais nos surpreende”, disse Takeshi, “é que a gente não venceu a SuperMassive, e a SuperMassive não venceu os Marines -- aliás os Marines massacraram a SuperMassive. E aí os Marines chegaram no grande palco e a SKT acabou com eles”.
Ok, temos que dar um jeito de fazer as coisas diferente.
“Então a gente disse ‘Ok, temos que dar um jeito de fazer as coisas diferente. Do jeito que estamos, não está funcionando.’”
Um dos técnicos mais proeminentes na história do CBLoL foi o ex-jogador de suporte e técnico-líder da paiN Gaming, Gabrel “MiT” Souza. Quando eu sentei e conversei com ele, ele ainda estava pensando no que fazer. Uma coisa que MiT estava considerando era acompanhar técnicos em outras regiões para desenvolver melhor suas habilidades. Queria aprender mais sobre as pessoas que lideraram a infraestrutura de orientação técnica no Brasil.
Eu não tinha computador em casa. Minha família não era tão pobre assim, mas não tínhamos dinheiro pra comprar um.
“Eu vi o HotshotGG jogando com a Nidalee e vi potencial no jogo”, disse MiT. Os eSports eram um risco no Brasil, como em qualquer região. Sair da escola para tentar a sorte em uma carreira sempre é uma escolha extremamente difícil, mas no Brasil talvez fosse pior porque, há 10 anos, possuir um computador era bem mais raro.
“Eu não tinha computador em casa”, disse MiT. “Minha família não era tão pobre assim, mas não tínhamos dinheiro pra comprar um. Éramos classe média. Aí um dia minha irmã me perguntou o que eu queria [de aniversário] e eu disse ‘um computador’. Quando eu estava no ensino médio, estávamos em crise financeira.
Eu não podia comprar meus livros, por exemplo. Então minha mãe disse que eu precisava entrar na faculdade, aí eu disse pra minha irmã pra me darem um computador pra eu poder estudar e entrar na faculdade. Nisso eu ganhei um computador, estudei um monte e de fato entrei na faculdade, mas ainda jogava muito DotA. Eu só estudava e jogava, estudava e jogava”.
São Paulo e Rio de Janeiro foram cidades incríveis de visitar. No entanto, se você sair da cidade, verá uma clara diferença entre alguns dos bairros. E não eram só as favelas. Em uma parte do trajeto até o estúdio, uma parede de concreto com arame farpado parecia servir de barreira. Mas para bloquear o quê? Eu não sabia – a vista, talvez.
Algumas partes da cidade tinham um ar meio distópico. Como estrangeiro, eu decididamente estava de um lado do muro. É esse tipo de coisa que se tende a ignorar facilmente ao se comparar algumas das grandes regiões com países como o Brasil ou o Vietnã.
Hoje em dia, porém, muita gente no Brasil tem computador. O caro é a internet, mas isso também melhorou o suficiente para, pelo menos, jogar League of Legends. E ao menos para o MiT, isso não explica muito o fato de o cenário do CBLoL estar um passo atrás.
Felipe “brTT” Gonçalves
Quando ele mata alguém, ele diz "rexpeita".
“Na Coreia”, disse ele, “quando você está crescendo, tem a responsabilidade de ser bom em uma coisa. Sempre que vejo os pais deles, é ‘você tem que estudar para ser o melhor’. No Brasil os pais são mais tranquilos, eles não têm expectativas tão grandes dos filhos”.
As diferenças culturais têm um papel importantíssimo na mentalidade do jogador e na sua atitude em relação à competição. Esse é o tipo de coisa impossível de copiar de região para região, e por isso é tão essencial desenvolver o seu próprio estilo. As equipes e regiões precisam identificar o tipo de jogo e de regime que mais se adequa aos seus jogadores.
MiT disse que a ênfase em jogadas individuais é visível até na fila solo, chegando inclusive a grandes streamers como o brTT. “Por exemplo, o brTT é um bad boy e todos querem ser iguais a ele”, disse o jogador. “Quando ele mata alguém, ele diz ‘rexpeita’”. É um bordão na linha do “Quem você pensa que é?”. Isso por si só pode não ser um problema, mas, se essa mentalidade leva os jogadores a se colocarem em mais situações assim, talvez crie alguns maus hábitos.
MiT disse que os jogadores são simplesmente ruins em tomar decisões, apesar de sua mecânica ser boa individualmente. Por exemplo, em vez de tomar a vantagem em atacar uma torre, “Às vezes eles preferem ficar e farmar mais uma leva, só para pegar um número maior. Eles pensam ‘eu tenho 100 de CM e o outro cara tem 95’”.
No entanto, para MiT essas peculiaridades pessoais não são, no fim, o motivo pelo qual as equipes brasileiras ficam para trás. A paixão, os momentos de alegria, essas coisas são boas para o jogo e para o cenário em geral. Os jogadores brasileiros talvez sejam os mais expressivos do mundo, o que torna muito fácil torcer por eles.
Só o que resta é que os investidores certos apareçam e vejam essa energia. Com isso vem uma equipe de suporte maior e, com a equipe certa, o Brasil talvez consiga canalizar sua paixão em uma maré que vai dominar o palco mundial. É provável que ainda leve um ano até darem início a essa onda, mas Takeshi acredita que já vai dar para surpreender as pessoas no próximo Mundial.
Mas é difícil compartilhar da empolgação antes de a equipe se provar, afinal, o Brasil não é a única região com grandes aspirações: a participação dos Marines pode ser apontada por qualquer equipe do mundo agora. Não é impossível ficar no grande palco com os grandes nomes, só é necessário muita luta – como foi o caso dos Marines.
Ayel disse algo que realmente me marcou: “O mundo é movido pela internet, e os eSports fazem parte disso”.
A paixão, os momentos de alegria, essas coisas são boas para o jogo e para o cenário em geral.
É só uma questão de tempo até o campo de jogo nivelar.
Em um dos meus últimos dias no Brasil, me deram duas opções: subir no morro para ver o Cristo Redentor, a maior atração turística de todo o país, ou visitar um bar que ficava no topo de uma favela. O bar estava virando cada vez mais uma atração turística, mesmo que à noite houvesse homens com metralhadoras. Escolhi as metralhadoras.
No caminho para lá, me disseram que pagaríamos uns membros de gangues para nos levar até o topo do morro, que isso “compraria a nossa proteção”. Mas tivemos sorte e o nosso motorista decidiu nos levar até lá, pois ele também queria ver a favela lá em cima. Afinal, era uma das mais seguras. Até hoje, não sei se o perigo foi exagerado ou se eu estou sendo inocente.
De qualquer modo, lá do alto do morro, dava para ver toda a costa carioca, todas as enormes praias ao longe, além dos morros que se erguiam no céu como pilares. E antes disso, vi a favela superpopulosa, cheia de gente que devia estar me achando um idiota por estar ali.
Conto essa história porque esse foi o momento que melhor capturou a minha passagem pelo Brasil e a minha compreensão do cenário do CBLoL. Há muitos problemas no país, sim, mas também há beleza. Milhões de pessoas que o fazem funcionar. E, dentre elas, tem aquelas que são movidas pela internet.
Aquelas cuja paixão faz com que lembrem com carinho das tardes passadas nas lan houses jogando Counter-Strike e matando o adversário na faca. Aquelas que vão a um estádio com capacidade para 500 pessoas e fazem um barulho de 5000. Aquelas que, mesmo sem equipe em uma Grande Final com os melhores do mundo, vão ao evento só para ver (de relance) seus jogadores favoritos. É isso que eu entendo por “jogar bonito”.
O Brasil não teve a oportunidade de demonstrar propriamente o jogo bonito no MSI. Acho que há um mundo em que os jogadores brasileiros podem flexionar os músculos no Rift, um mundo em que eles podem jogar bonito. E, ainda que o League of Legends seja voltado ao desempenho em equipe, grandes jogadas individuais podem abrir várias opções para jogadas em nível macro. As jogadas solo são, claro, arriscadas, mas talvez seja um estilo que eles possam desenvolver -- um que seja particular ao Brasil e simultaneamente simbólico de sua cultura. Afinal, eles não têm muito a perder. Os fãs já os adoram.
"Vou fazer tudo que puder para estar lá para representar o meu país."
“Estamos no Rio, sabe?”, disse brTT. “É a minha cidade. Tenho vários fãs aqui, mais do que em São Paulo. O pessoal sempre fica louco quando eu falo com eles. Quando eles me veem – é incrível. Dinheiro nenhum se compara a isso”.
O brTT também amadureceu nas lan houses. Viu as lutas, estava bem no meio delas. Facas virtuais nas costas dos outros. Faca virtual nas costas dele. Por enquanto, a faca fica ali: alojada entre a grande alegria trazida por ele aos fãs e a perda no grande palco. O próximo objetivo é o maior palco possível.
“Quero ir pro Mundial”, diz ele. “Tem que ser eu. Vou fazer tudo que puder, não importa quantas vezes eu tenha que tentar para estar lá para representar o meu país”.

2 Comments

Lauchmelder8/28/2017, 2:03:49 PM1 votes

Yo, Riot. Wrong language

totalfear8/28/2017, 5:01:42 PM1 votes

Brasil Até Morrer Coroi [slayer-jinx-catface]